sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NOTURNO II
lisieux

Os caminhos do tempo
sulcados em nosso semblante
produzem estranhas sombras na memória...
Somos, meu amigo
o dia crepusculando
escorrendo pra dentro
da boca da noite.

E, quando a noite chega
tu podes perceber os fios de prata
em meus cabelos
e eu posso ver milhares de asteróides
apagando-se no fundo dos teus olhos.

Os impulsos de nossa juventude
silenciam-se e adormecem...
suavemente ressonam
na densa escuridão
que nos recobre.

No entanto, o frêmito sutil
que me percorre o corpo
assegura-me que o Amor
hiberna apenas,
à espera do chamado
de uma nova aurora.

Em meu sonho os poetas
me visitam, cantando odes,
repetindo estrofes,
já há muito, também adormecidas.
E eu sonho auroras multicoloridas,
céus estrelados, luas cor de prata
e novos cânticos de libertação.

No entanto o nosso anoitecer
nos traz as mesmas ânsias,
cansadas e dementes do passado...

Queria te beijar, velar teu sono,
mas o deserto se alarga
e eu me perco de ti.
Ventos sombrios,
de novo,
nos afastam...

Mas felizmente, amado,
o sonho toma asas,
quebra as barreiras do imponderável...
Tu te levantas e vens ao meu encontro:
a boca cheia do frescor dos anos,
e nas retinas, novas esperanças.

E tu me lembras que ainda sou mulher.

E a poesia inda nos faz crianças.


BH – 24 de outubro de 2009

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