segunda-feira, 5 de outubro de 2009

CARTA AO CIRURGIÃO

Ao Doutor cirurgião
digo de forma direta,
não tenho doença alguma,
o único mal que me afeta
eu vi na tomografia;
é o acúmulo de poesia
na cabeça do poeta
. - ADEMAR MACEDO


CARTA AO CIRURGIÃO
lisieux

Ao Doutor cirurgião

trago aqui o meu abraço
e peço, por compaixão,
não tire nenhum pedaço
do meu cérebro, porque,
eu afirmo pra você:
não tenho doença, não!
O que tenho é poesia
que jorra em mim, noite e dia
da cabeça e coração!

Digo de forma direta:
não pega a minha doença...
pois o ofício de poeta
se adquire de nascença.
Poesia não se aprende
e o leigo não compreende
esta sutil diferença:
alguém pode ser esteta,
dizer que de arte entende,
porém, não nasce poeta!

Não tenho doença alguma!
O que me corre nas veias
não é apenas espuma...
Do que elas estão cheias
é de sangue trovador,
que carrega o riso e a dor
pelas sendas do meu corpo,
cheio de viço e calor...
É isso aí: Não tô morto!
Estou bem vivo, Doutor!

O único mal que me afeta,
ao longo destes caminhos
é o amor pelas pessoas
que têm feridas de espinhos,
sejam más ou sejam boas...
Que não têm felicidade,
que percorrem a cidade
diante dos olhos meus
sofrendo, porque não sabem
o valor que têm pra Deus.

Eu vi na tomografia!
Eu sei: não estou doente...
O que tenho é poesia
ocupando a minha mente
e transbordando, Doutor.
Por isso está diferente
o exame tão moderno.
Mas poesia de menos
me mataria bem mais...
me levaria pro inferno!

É o acúmulo de poesia
que forma a tumoração
isto é causa de alegria
não de angústia ou compaixão!
Pois se o tumor supurar
ele vai é derramar
bem aqui, dentro de mim,
mar agitado de versos
que vão mudar universos
num vai e volta sem fim...

Na cabeça do poeta
não mora doença não!
Mora, sozinha e discreta,
a Dona Alucinação...
que sobrevive de sonho,
destes versos que componho
e solto, ruas afora...
Deixe-me em paz, por favor...
Minha doença me salva,
e a cura mata, Doutor...

lisieux – BH – 04.10.09

glosa em homenagem ao meu amigo Ademar, cabra valente!

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