lisieux
Eu estava lá na serra
sozinha, curtindo o frio
de longe eu o avistei
de sobretudo e chapéu
mãos nos bolsos
cãs na fronte...
e me perdi no horizonte
lembrando de quando o vi
além, na cidade grande.
Lembrei-me do meu garrote
tão forte e tão musculoso
que a pinotar, vinha livre
pelas largas avenidas
se esquecendo das pastagens
e desprezando as coxias
para mergulhar nas coxas
da guria "mineirucha"...
Agora, ali estava ele
mesmo garrote selvagem
e o seu olhar chispava
no fundo do meu decote
talvez lembrando de quando
nos seios, ele mamava...
As mãos, velozes qual asas
se encontraram, se aqueceram
o sorriso iluminou
os nossos lábios e dentes...
A mesma voz de berrante,
que rouca, no meu ouvido
dizia: guriazinha...
me deixando desmanchada
tremendo qual gelatina...
o mesmo cheiro de mato
e suponho, o mesmo gosto
do mate quente e amargo
que eu tomava, de um só trago,
queimando a beira dos lábios.
E quando estávamos já
a meio palmo do outro
os corpos cheirando a cio
narinas resfolegando
como gado no curral,
um piazito interrompe
com uma voz esganiçada,
chamando o guri pra estrada:
_Vem logo, vamos, papai!...
O olhar dele se apaga
como a brasa de um cigarro...
Solta-me a mão devagar
e sussurra adeus, de novo...
Explode em meu coração
o estouro de uma boiada...
E ele se vai para o carro
onde o presente o espera
e deixa cá o passado
a saudade... esta quimera...
E eu prossigo pensando
porque o tempo, este carrasco
não nos deixa consertar
o que fizemos de errado
nalgum ponto, do caminho.
E quando eu voltar pra cidade
ainda ouvirei ao longe
o som triste do berrante
a cada vez que lembrar-te.
18.08.03
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
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